Lendas e Historias

Lendas e Historias PT

(lire en français)

Pereiro

- Oh ti Justino, porque é que lhes chamam bois cabanos? Donde é que vem isso do cabano?

- Os bois cabanos são aqueles que têm os cornos direitos ou para baixo.

- Olhai que há cá um prédio no povo que tem um nome que vem dos bois. Não dos cabanos, mas dos pereiros.

- Não me diga!

- Já contava o meu pai, no céu esteja, que já o avô dele contava que ali para os lados da Codeçosa havia umas casas e que aquelas terras das Feiticeiras, Maria Paz, Estruganos, Pinheiral e Pereiro eram boas, tinham água e que eram ali as hortas do povo.

- Mas que a maior parte daquelas terras pertenciam a uma família, que eram os Benais.

- Nunca ouvi esse nome!

- Pois não, porque desapareceram de cá, como ides saber depois do que vos vou contar.

- E depois? Que é que isso tem a ver com o nome?

- Diz que andavam duas juntas de bois a lavrar. Mais uma, que a outra junta de bois era nova e ainda os estavam a fazer ao trabalho, tinham sido amansados há pouco tempo. E que um dos vitelos dessa junta de bois nova era um vitelo pereiro, que tem os cornos muito levantados. Enquanto os cabanos têm os cornos direitos ou para baixo, os pereiros têm os cornos para cima, levantados. E que esse vitelo pereiro, ao passar numa borda do nabal que lá tinham, mordeu um bocado dum nabo. O homem que andava com eles deu-lhe uma ferroada nas nádegas com a aguilhada, para andar. O vitelo, ao sentir o aguilhão, deu um salto, começou a ficar esganado e obrigou o outro vitelo a parar, porque iam junguidos.

Tiraram o vitelo do jugo e ele começou a espernear. Juntaram-se ali alguns homens, e o filho mais velho do patrão, e único, que o resto eram filhas, viu logo o que tinha acontecido. O vitelo mordeu metade do nabo, quando sentiu o ferro da aguilhada abriu a boca e o bocado de nabo escorregou-lhe inteiro e colou-se na garganta. E nem para baixo nem para cima, o vitelo estava a morrer engasgado.

Estava tudo a ver no que dava, e nisto o rapaz mete o braço na boca do vitelo, mas o bocado de nabo estava fundo e ele teve que meter o braço quase até ao cotovelo. O vitelo a mexer-se, aflito, e ele à procura do nabo, mas lá conseguiu puxar o cibo do nabo. Quando sentiu algum alívio, o vitelo aperta os dentes para tentar respirar. O rapaz não teve tempo de tirar o braço e o vitelo cravou os dentes. Começaram a ver sangue na boca do vitelo e o rapaz a gritar e a tentar tirar o braço. Ainda tentaram meter um pau na boca do vitelo, puxavam por ele, batiam, mas o raio do vitelo não largava, ele queria respirar e cada vez apertava mais. Lá houve um que se lembrou de lhe tapar as narinas, e ele, como não conseguia respirar, abriu a boca e lá conseguiram tirar o braço do rapaz. O braço estava praticamente cortado e mordido em vários sítios, não tinham ali nada para segurar o sangue que saía por todo o lado e o rapaz esvaiu-se ali em sangue.

O pai dele, quando chegou, o rapaz já estava nas últimas. Dizem que o homem perdeu o juízo, começou a gritar agarrado ao filho, diz que foi o fim do mundo. Único filho e diziam que era um trabalhador dos melhores, os homens nem se atreviam a dizer nada. Por entre os gritos e desespero do pai e do resto da família que foi chegando, lá lhe foram explicando o que aconteceu.

O homem puxou da faca que trazia, mandou segurar o vitelo e que o matou logo ali, naquele sítio. Mas diz que com crueldade! Não lhe cortou a garganta ou o esfaqueou no coração. Não! Que o esfaqueou em todo lado, na barriga, na cabeça, nas pernas, no rabo; o pobre do animal parecia um crivo a escorrer sangue, e ele sempre a esfaqueá-lo. Quando o vitelo caiu, ele que caiu em cima dele e continuou a espetar-lhe a faca.

A família ficou tão destroçada, que venderam tudo o que cá tinham e desapareceram.

Por isso é que ali lhe chamam o Pereiro, por causa do vitelo.