Benlhevai

Texto de Apresentação

Capítulo XIII
As pulhas e o Entrudo

À noite, entre os sótos do Porfírio e do Cipriano, os rapazes combinavam o programa da noite. Quem ia roubar uma ou duas alheiras a casa, quem levava o pão e a que pipa se ia tirar o vinho. Depois, noite cerrada, que as noites de inverno começam cedo, lá iam para as fragas dos Teixeiras botar as pulhas, com a indispensável folha a servir de amplificador. Esta folha não é como as outras, é um enorme funil que servia para, após as vindimas, pôr o vinho nas pipas. Em dias especiais faziam-se duas equipas, uma ia para as fragas dos Teixeiras e a outra para a Senhora da Esperança, ou lá para os lados do Poço d’Além. Havia sempre uma natural distribuição de tarefas, nem era preciso combinar nada. Um dava mais jeito para fazer a fogueira, outros para assar as alheiras e linguiças, ainda outros para aparelhar os casais, e dois ou três, pelo tom e força de voz, encarregavam-se de botar as pulhas.
Entretanto, de ouvido colado às janelas, as raparigas esperavam para ouvir quem lhes calhava nessa noite. Eram assim as pulhas. Faziam-se casamentos entre as raparigas e os rapazes solteiros da terra. Normalmente com sentido irónico, a um rapaz jeitoso dava-se uma mandronga qualquer, a uma moça mais fina dava-se um qualquer bertoldo ou tomba ladeiras. Outras vezes faziam-se os pares com objetivos disfarçadamente sérios.
Do silêncio profundo da noite saía aquela voz, amplificada pela folha, que se estendia em todas as direções, caía por sobre as casas, passava por todas as ruas, tocava em todas as janelas:

        “Maria Trigueira
        Também a havemos de casar
        Diga lá oh camarada
        Que rapaz lhe havemos dar”

Fazia-se um silêncio, enquanto se escolhia o rapaz mais apropriado para aquela donzela. Respondia então outro vozeirão:

        “Daremos-lhe o Zé da Fonte
        Que é capaz de a estimar!
        Está bem, camarada?”
        “Está bem,”, respondia o primeiro. “Uuuuh, uuuuh”, dois roncos a selar o casamento.

Seguiam-se então novos casamentos, para alegria de uns e umas, e para desgosto de outros e outras, normalmente para risada geral.

No fim, toca a comer e beber, depois de verificar que não havia nenhum movimento suspeito. É que, nestes anos, também eram proibidas as pulhas, e algumas vezes houve em que apareceu a guarda a distribuir porrada nos que apanhava.

As pulhas eram botadas do Natal ao Entrudo. No último dia, em vez dos casamentos, partia-se o burro. Não se casava um rapaz com uma rapariga, em vez disso dava-se uma parte do burro a cada um dos cidadãos da aldeia. Tudo muito bem pensado, porque uma perna ia sempre para um coxo, a garganta para alguém que falava de mais, os dentes para quem só já tivesse uma ou duas cravelhas, o pelo para um careca, a língua para quem a tinha já bem afiada, e outras partes do corpo do burro que não convém aqui referir iam para alguém que se suspeitava que precisava delas.

No dia a seguir era o Entrudo, em que valia tudo. Homens vestidos de mulher, mandrongas provocantes e mal enjorcadas que só de olhar para “elas” e de tanto rir, ficava a barriga a doer com a risa, mulheres vestidas de homem, mais arranjadinhas e também mais decentes, caras tapadas com rendas ou de tal maneira pintadas que não se vislumbrava quem era. Faziam-se negócios, rebentavam bombas de carnaval, uma multidão de garotos seguia os Entrudos pelas ruas da terra, gritando a plenos pulmões:

        “Fora Entrudo
        Fora Entrudo”

De vez em quando punha-se uma bomba debaixo duma lata de conservas virada ao contrário. A bomba rebentava e a lata subia uns bons sete ou oito metros. Era uma risada, os garotos são o diabo… Ao cair da noite lá ia a burra – dois rapazes debaixo duma manta e duma albarda, o da frente a trote, o de trás aos couces, um a puxar-lhes pela rédea, outros a traçar o itinerário, entrando nas casas onde se sabia que os seus proprietários iam pôr alguma coisa na mesa para comer, ou vinho para animar este cortejo. Saía-se duma casa, entrava-se noutra, e depois da volta feita já não havia arnaz para mais nada. Esta burra era violenta, chegavam todos exaustos ao fim da volta, a botar os bofes pela boca e com o odre cheio de vinho.

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