Benlhevai

Texto de Apresentação

5 –A História de Portugal e de Benlhevai – século XX

Da Monarquia para a República, o Benlhevai da época


Esta história começa assim:

1 de Janeiro de 1900

Ontem à noite dizia-se “Morra o Velho! Viva o Novo! “

O velho acabou mal, mas o novo também não começou lá grande coisa. Ontem chegou ao fim o século dezanove e acabou com a monarquia em decadência; Hoje começa o século vinte e a situação não vai melhorar, esse processo de decadência vai mesmo sofrer um agravamento. O último presidente de antes do 25 de Abril teria dito num dos seus famosos discursos, “Ontem estávamos à beira do abismo, hoje demos um passo em frente”, que espelha bem esta passagem de século. A monarquia começou a entrar em agonia. A classe política estava desacreditada, a economia estava em crise, e não havia respeito pelas instituições. Os republicanos iam ganhando cada vez mais poder. O Rei D. Carlos I, reinava desde 1889, foi a princípio um liberal, mas desta vez, em 1907, apoia o regime ditatorial do seu primeiro ministro, João Franco, e encerra o parlamento.

A oposição reage com vigor, protestam todos os partidos da oposição, desde os monárquicos aos republicanos. Em consequência da dissolução do parlamento foram marcadas eleições, mas já se sabe o que são eleições em ditadura, antes de acontecerem já se sabe quem vai ganhar. A oposição é constituída pelos monárquicos democratas e pelos republicanos, e não tendo condições para disputar as eleições pacificamente, optam então pelo uso da força. A 28 de Janeiro de 1908 os republicanos fazem um golpe de estado, mas este falha. Em resposta a este golpe a ditadura endurece. É assinado um decreto que permite o exílio para o estrangeiro ou a expulsão para as colónias, sem julgamento, de quem o poder considerasse que atentava contra a ordem pública. Esse decreto é publicado a 1 de Fevereiro, e é o princípio do fim da monarquia.

Nesse dia vinha o Rei de Vila Viçosa, e mal sabia que em Lisboa estava preparado um novo golpe de estado, uma revolta para o matar. Quando a carruagem passa no Terreiro do Paço, um dos revoltosos, um tal Manuel Buíça vai para o meio da rua e dispara sobre o Rei, matando-o. Outro revoltoso, Alfredo Costa, entra na carruagem, dispara sobre o príncipe Luís Filipe, mas este mata-o. Manuel Buíça dispara então novamente, e mata o príncipe. Na confusão que se segue Manuel Buíça também é morto pela polícia, e entretanto o movimento revoltoso é dominado.

O outro filho do Rei, D. Manuel, com apenas 18 anos, tornou-se assim Rei de Portugal. Demitiu o primeiro-ministro, João Franco, e nomeou um governo formado por todos os partidos. A situação acalmou, mas foi sol de pouca dura. Ninguém se entendia, em dois anos houve sete governos, e com este estado de coisas eram os republicanos que iam ganhando terreno. Estava preparado o terreno para novo golpe de estado.

Em 4 de Outubro de 1910 começou uma revolução, e no dia seguinte, 5 de Outubro, é proclamada a República. O Rei gozava de boa reputação, e a sua vida é poupada, sendo enviado para o exílio, em Inglaterra.

De Benlhevai, por estes tempos, pouco se sabe. Vamos dizer que tinha nascido ou estava a nascer a primeira geração do século. A maior parte iria passar a sua vida a tirar da terra o sustento para a família, vamos nomear apenas alguns porque a lista é grande e podíamos esquecer alguém, o António Alves, o Arnaldo Pinto, o António Valverde, o Manuel Macedo, o António da Celeste, o Luís Pinto, o Abílio Ferreira, o Adriano Azevedo, o Teixeira Velho, o Manuel Maria, o Manuel Nestor, o Lúcio, que não gostava de confusões, e era naca ou cano quer dizer, monarca ou republicano, conforme o que convinha na altura, o António Rebelo, o melhor tocador de viola que nasceu em Benlhevai, tocava nas rondas, aquelas voltas ao povo, à noite, em que os rapazes cantavam cantigas, e cada um uma cantiga especial à porta da sua amada, tocava aos domingos quando era convidado a fazê-lo. Sempre pronto, só protestava quando, de tanto tocar, a barriga começava a dar horas, e a garganta a ficar seca:

“ Toca Rebelo, toca Rebelo … Nem pinga nem taco...”

Outros tinham outras profissões, ou acumulavam-nas com a lavoura, o José Teixeira, ferrador, o Antoninho Teixeira e os irmãos Francisco e José, carpinteiros, Humberto, barbeiro, João e José, pedreiros, António, alfaiate, João Branco e irmão José, pastores, Cordeiro, cesteiro, João, moleiro, José, sapateiro, o José Medeiros e Joaquim Leite, madeireiros. Estes vieram do Minho, mais propriamente da Várzea, lá para os lados de Felgueiras, cá casaram e ficaram a viver, e ainda bem para Benlhevai. Gente boa nunca é demais.

Também havia mulheres que tinham ofícios específicos, a Angélica, que lá mais para diante viria a ser a carteira, isto é, a que ia levar e trazer o correio a Santa Comba, a pé, ia de dia, vinha de noite, a Ester, parteira, a Marquinhas, que fazia mezinhas e dava injecções.

Todos e todas trabalhavam, à excepção daqueles poucos que há sempre em todo o lado e em todas as épocas, alguns agiotas e outros que também viviam do trabalho alheio. Com estes não vamos perder muito tempo.

Começou então a República, e não teve uma vida fácil. Logo em 1914 rebentou a Primeira Guerra Mundial, em que Portugal participou. Angola e Moçambique tinham fronteiras com colónias alemãs e Portugal envia para estas colónias um contingente de tropas, com receio de ser atacado pelos alemães. Em 1916 a Alemanha declara guerra a Portugal, por terem sido aprisionados 70 navios alemães que se tinham refugiado em Lisboa, que era um porto neutro. É criado então o Corpo Expedicionário Português, com cerca de 53.000 militares, que parte para França para participar activamente na guerra, onde deu o seu contributo para a derrota da Alemanha e consequente vitória dos Aliados.

Benlhevai deu a sua contribuição para esta vitória, uma vez que alguns dos seus filhos nela participaram, casos de Hipólito Correia, José Teixeira (Zé Ferrador) e António Alves.

Os ares de maior liberdade que a República trouxe, deram a possibilidade de emigrar. Notícias de França diziam que lá se ganhava bem, e que quem quisesse trabalhar governaria lá bem a vida. Assiste-se assim a um fluxo migratório significativo que levou para lá vários emigrantes de Benlhevai, Arnaldo Pinto, Inocêncio Azevedo, Artur Correia, Abel Rebelo, Eurico Morais, João Pedreiro, Acácio Macedo e mais alguns. Este último por lá ficou, anos e anos sem dar notícias. Há bem poucos anos que foi descoberto, e dizem que por acaso.

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6 – Primeira Guerra Mundial – Batalha de La Lys


Esta guerra ficou marcada, no que diz respeito a Portugal, pela batalha de La Lys, na Flandres Francesa. A 9 de Abril de 1918, as tropas portuguesas viram-se envolvidas nesta batalha, quando já estava marcada a sua retirada para a retaguarda da guerra. A Alemanha estava a perder a guerra, e já em desespero lançou uma forte ofensiva sobre as tropas aliadas, incidindo especialmente sobre o flanco onde estavam 20.000 portugueses.

Em apenas 4 horas, 11.000 destes portugueses foram mortos, feridos ou feitos prisioneiros. Tinham o armamento em péssimo estado, estavam exaustos, já não eram rendidos há tempo demais, fruto do estado caótico em que estava a situação política em Portugal, mas a sua resistência foi heróica, o que deu tempo às tropas aliadas para virem defender as suas posições, e impedir o avanço das tropas alemãs.

Ficou no entanto caro este gesto heróico dos portugueses. Muitas Mães choraram os seus filhos, amigos perderam outros amigos, crianças ficaram sem pai, mulheres ficaram viúvas, jovens viúvas que perderam o sonho duma vida familiar que tinham pela frente. A guerra tem sempre destes custos, as medalhas que os generais recebem estão impregnadas de sangue, suor e tantas e tantas lágrimas, daqueles que não as recebem.

Esta guerra teve no entanto uma excepção. Um soldado que nessa batalha sobreviveu àquele massacre, viu-se de repente sozinho na trincheira. Todos os seus camaradas tinham sido mortos. Enfrentou as colunas alemãs, vagueou pelo campo de batalha disparando sobre o inimigo com armas e balas que ia encontrando pelo caminho. Ia carregando para a retaguarda os corpos dos camaradas feridos que encontrava. Por acaso, um desses feridos a quem salvou a vida era um médico escocês, que veio depois procurar quem o tinha salvo, e moveu as suas influências para que a sua história fosse conhecida e fosse condecorado. Assim foi, e quem o condecorou, com o Colar da Ordem da Torre e Espada, a mais alta condecoração existente no país, disse-lhe na cerimónia:

“Tu és o soldado Milhais, mas vales por milhões”!

Ficou então a ser conhecido pelo soldado Milhões. Era português, transmontano, e merece ficar na História, nesta e em todas as outras.

As guerras são sempre más. Esta provocou a morte e a destruição como todas as outras. Nos campos de batalha ficaram gritos de dor, que se foram transformando em suspiros cada vez mais imperceptíveis, até ficarem apenas as lágrimas choradas por quem nunca mais se voltaria a ver. A dor física era a que menos doía, embora se misturassem essa e a outra, a dor da agonia, a dor de ver a luz diminuir até desaparecer. A morte chegava assim cedo demais, no auge da vida, na idade dos sonhos. Malditas guerras.

A Guerra

Ficaram milhares de corpos esquecidos nos campos de batalha. Os ventos iam-se encarregar de levar para longe as doenças que todas as guerras provocam. Esta trouxe a pneumónica, também chamada peste espanhola, uma epidemia que ceifou milhões de vidas em toda a Europa e cerca de 100.000 em Portugal.

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