Benlhevai

Texto de Apresentação

4 – As Mulheres que embalaram Benlhevai


Sendo esta a história do Benlhevai que trabalha, é também a história das mulheres que tratam da casa, das que parem as crianças, que as amamentam, que choram quando morrem. Não deve haver em Benlhevai uma mulher, destas que nasceram nas primeiras décadas do século vinte, que não tenha chorado a morte dum filho, que não o tenha metido numa caixinha e acompanhado ao cemitério, para o lugar reservado aos anjinhos.

Esta é a história das mulheres que inventam o almoço e a ceia, que cozem o pão, que limpam a casa, que fazem a roupa, que a lavam e que a cosem, que criam o reco, que tratam das pitas, que participam nos trabalhos do campo, na segada, na malhada, na apanha da azeitona, da castanha, das batatas, no cultivo dos feijões, das cebolas e de tudo o mais que a horta dá. É a história das mulheres que trabalham desde o nascer ao pôr do sol, e à noite, à luz da candeia, lavam as panelas, os pratos, cosem as meias e os meotes, remendam as calças, fazem rendas, embalam ao colo os filhos que finalmente se renderam ao sono. Às vezes levam porrada quando os homens chegam borrachos.

Vamos parar por aqui, porque enchíamos mais algumas páginas com as tarefas que estão reservadas às mulheres. Mas vamos prestar já, no início desta história para que fique bem vincado, e também porque não vamos falar delas o suficiente durante o desenrolar da história, uma homenagem especial a todas as mulheres de Benlhevai que tiveram que multiplicar todo o imenso trabalho que já foi descrito e o que ficou por descrever pelo número de filhos, e estes eram os que Deus dava e não levava em pequenino, os tais anjinhos, cinco, seis, sete, oito, nove, até dez, como foi o caso de Celeste Macedo, e mesmo onze, como foi o caso de Laura Sousa, que até recebeu um prémio por isso, na Câmara de Vila Flor!

Faço um parêntesis para dizer que o autor desta história é o mais novo desses onze, e para prestar já uma homenagem, simples e sincera como todas as homenagens deveriam ser, a todas as mulheres, à minha Mãe e a todas as Mães de Benlhevai, Mães com M grande pela imensidão do seu trabalho, pela grandiosidade das suas acções, pela dedicação de toda a sua vida aos filhos, ao marido, e a outros a quem a infelicidade bateu à porta. Já citei dois nomes que personificam a vida das mulheres em Benlhevai, que mostram como é grande a sua generosidade, e como foi por vezes ainda maior o seu sofrimento. Vou citar mais alguns e deixar outros por citar, porque há mais, Isabel do Rebelo, Lucinda e Isabel Leite, Maria Rega, Umbelina, Ester, Ludovina, Antónia, Aurora, Georgina, Raquel, Imperatriz, Olímpia, Celestina, Fernanda, Celiza, Maria Cândida, Maria de Jesus, Maria Augusta, Maria Engrácia, outras Marias e Marquinhas.

Está também aqui a diferença desta história, que é a da gente que trabalha, para as outras que contam a vida dos reis, rainhas, príncipes e princesas, bispos e cardeais, presidentes e todos os outros que pertencem a estas classes, enfim, a gente rica.

Fossem os homens e mulheres desta história, gente do poder ou que andassem à volta dele, e não faltariam medalhas nos seus peitos. Não haveria um 10 de Junho, que é o dia de Portugal, em que o presidente homenageia aqueles que se destacam pelos seus feitos, que não estivessem lá, peito estendido, para aí o presidente pôr mais uma medalha. Não faltariam motivos para tal.

Um que tinha trabalhado todo o ano, de sol a sol, apenas com uma ou duas territas suas, e o resto arrendado. Com estes parcos recursos tinha conseguido que a sua família, mulher e uma carrada de filhos, tivessem pão todo o ano. Este levava a medalha da Grã Cruz da Ordem de Cristo.

Uma que não tinha quase nada para dar aos filhos, e com uma cesta de batatas ganha aqui, umas espigas de pão colhidas além, meia dúzia de cestas de azeitona apanhadas ao rebusco e uns figos que tinha secado, conseguiu também passar o ano sem que os seus filhos chorassem de fome. Esta levava a Medalha de Torre e Espada.

Mas não, o presidente, este e os outros, não nos conhecem. A gente que eles homenageiam são os que lhes prestam vassalagem, que cantam cantigas para eles, que lhes fazem as calças ou os vestidos para as damas, os generais que ganham as guerras sentadinhos à mesa, chefes disto e daquilo que vão às festas todas, os que fazem bancos, empresas e fundações, que desbaratam o dinheirinho que tanto custa a ganhar a quem trabalha.

Vamos voltar aos nossos, a esses nomes de gente que dá a sua vida pelos outros, que não têm direito a medalhas, tantos e tantos que ficam por escrever. Vamos só desenvolver um bocadinho o percurso duma delas, porque é paradigmático.

Preciosa, que já nos deixou, que criou os filhos e ainda teve a capacidade de criar os seus sobrinhos porque tinham ficado órfãos, que não tendo em casa fartura para dividir com eles, dividiu o seu amor. Não é preciso ter visto para o afirmar. Um deles, o Serafim, que nasceu com deficiências físicas e mentais, o nosso amigo Serafim, e esse é mesmo amigo porque não sabe fingir, sempre viu a sua tia como mãe, adorava-a como se adora uma santa, e bem sabemos que a sua tia Preciosa o protegia e o amava como Mãe. Por vezes temos tendência a ver só os defeitos das pessoas, que os têm, como todos os temos, e menosprezamos as suas virtudes. Mas temos que esquecer os seus defeitos quando vemos mulheres que abdicaram de grande parte das suas vidas para se dedicar a quem precisava delas, o seu filho, a sua filha, os seus familiares, o seu marido que ficou doente.

Talvez descreva o feito de mais algumas delas com o desenrolar da história. Quem nasceu ou vive em Benlhevai sabe quem são, algumas dessas mulheres fazem parte dos actuais quase duzentos habitantes de Benlhevai, estão aí, cruzamo-nos com elas todos os dias, e não lhes dizemos, porque não calha ou porque não temos feitio ou coragem para isso, o quanto admiramos a sua dedicação e coragem. Talvez fosse melhor que lho disséssemos!

Vamos percorrer este século XX tentando acompanhar a história de Benlhevai com a história de Portugal, por vezes passando até para lá das nossas fronteiras. Esta história vai ser escrita juntando o que sabemos, o que ouvimos dizer, o que lemos, o que recolhemos de pesquisas. Vai ser por diversas vezes a nossa versão dos factos, por vezes tendenciosa. As histórias são todas assim.

A História de Benlhevai, com H grande, será outra, será a soma desta com outras, acrescentando todos os contributos de quem as ler e os quiser dar. Há de certeza pormenores que aqui faltam, acontecimentos que não são relatados, nomes de pessoas que aqui não são mencionadas e que ajudaram a construir Benlhevai. Há de certeza outra maneira de ver os mesmos acontecimentos.

Haverá no entanto um mérito que não se poderá negar a esta história – é a primeira que é passada a escrito. Naquelas histórias saborosas que sempre se contaram aos domingos, em dias de chuva, aos serões, havia sempre a possibilidade de voltar atrás. “Uma ocasião, na feira de Chacim,…, não, minto, foi na feira de Macedo” , e a história lá se ia desenrolando.

Nesta, por ficar escrita, fica registado o erro, a meia verdade, a verdade que não é consensual. Ao escrever-se uma história há pois um risco inerente a esse facto. É aí que entra a marca do autor, o mérito será dele e de mais alguns se a história for bem aceite, e o fracasso será dele se a história ficar esquecida. Aqui o fracasso será só dele, é sobre os seus ombros que ficará para sempre.



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