Benlhevai

Texto de Apresentação

Capítulo XII
A grande viagem


Foi um dia triste, este da partida. Despedi-me dos bois, o Castanho e o Marelo, fiz as últimas festas ao Farrusco. Não sei se ouviram o que lhes disse ou se ficaram confusos com a estranha forma de lhes falar. Não estavam habituados a este exagero de festas, nem era hábito verem-me assim com os olhos húmidos e a deixar as palavras a meio. Se calhar só vão compreender que foi uma despedida quando os dias se forem passando, uns após outros, outros ainda, sem ouvir a minha voz e sem me ver.

Despedi-me novamente dos meus amigos mais chegados, que destes e dos outros já ontem me tinha despedido, no soto do Porfírio, entre umas canecas de vinho, pães de três tetos e bacalhau. Bebemos demais.

Despedi-me da tarimba, da casa e de todos os seus recantos, deste chão, deste cheiro, deste aconchego, do silêncio da noite e do luar calmo e doce que a embala. Foram despedidas tristes, para as quais me fui preparando nestes últimos dias e às quais fui resistindo.

Despedi-me do Pedro, do Luís e da Isabel, chorámos todos mais uma vez.

Despedi-me de Carolina, à tarde, à hora do costume, a caminho da fonte. A partir de hoje ia ser só uma recordação, essa hora do costume, esses momentos com que sonhava todas as noites, todos os dias. Foi uma despedida desajeitada, nem conseguimos falar. Bebi-lhe todas as lágrimas, acariciei-lhe os cabelos, separámo-nos com um abraço que me vai dar forças para enfrentar todos os perigos, todas as dificuldades. Como dói a partida, que força me deste com esse abraço, Carolina, meu amor.

Por fim despedi-me dos meus pais, e aí perdi-me nas lágrimas, nos abraços, nas palavras de alento que não chegavam ao fim. Quero esquecer estas despedidas e a tristeza que tomou conta de mim. Quero recordar o meu pai pelo sorriso e pela força que sempre me transmitiu e não por aquele silêncio enevoado com que me abraçou, quero recordar a minha mãe pela alegria que põe em cada tarefa, pela ternura com que nos olha, e não pelas lágrimas que humedeceram o seu choro. Quero pensar no dia em que hei-de regressar, vitorioso, e nos dias que se hão-de seguir, sempre com eles por perto. Quero pensar no encontro e não na separação, mas é de separação que falam os meus passos. Levam-me para longe e afastam de mim Benlhevai e todos os que deixo.

Levanto-me, limpo a garganta, respiro fundo, passo as mãos pelos olhos com a ilusão de os secar. Estico o peito, “-É agora!”, e aí vou eu. Deixo tudo para trás, mergulho no desconhecido, na aventura.

Como havíamos combinado, cada um saiu de sua casa e fomos encontrar-nos já fora do povo, junto ao sobreiro que está no cruzamento da Rodeira com o caminho que vai para a Maria Belida. Quando chego, já lá estão o Carlos e o Luís “Pedreiro”. O Chico “d’Eirinha” e o Manuel “da Rosa” chegam logo a seguir.

- Já estamos todos? Então vamos!

São dez da noite, no chão é projectada a sombra de cinco vultos, cinco homens, que começam uma grande viagem, clandestina. Aí vamos nós, a salto, rumo a França.

Ninguém diz palavra, o único barulho que se sente é o dos passos, algo desajeitados, porque os sapatos novos são sempre duros de amansar, e todos nos lembrámos de calçar sapatos finos, como se fôssemos para uma festa. No caminho pedregoso da Maria Paz, ainda nem um quilómetro tínhamos andado, já todos estávamos arrependidos por não termos levado os sapatos grossos que calçávamos todos os dias, moldados aos pés, ainda que meio rotos.

A noite está fria, ontem choveu tudo e hoje o céu está limpo, a prometer geada. As estrelas, centenas delas, tentam alumiar-nos o caminho, mas estão longe e é a lua que nos dá a claridade suficiente para não esmurrar já a biqueira dos sapatos nestes seixos que enchem o caminho. Ao passar na canelha da Maria Belida foi a erva que ameaçou molhar-nos os pés, aqui pela Maria Paz são as pedras que dificultam o nosso caminhar. A respiração de cada um começa a sentir-se também, a culpa é do frio e do peso da mala. No que irão a pensar os meus companheiros de viagem? O Carlos com certeza no desconhecido que o espera, os outros nas mulheres e nos filhos que ficaram a chorar. Cada um leva um sonho de uma vida melhor, todos levamos um peso no coração que nos impede de falar.

Passamos pelas Chãs, estamos a meio desta caminhada até à ponte do Salgueiro, seguimos em frente e no sítio em que o caminho começa já a descer para Valbom viramos à direita, para os lameiros do Salgueiro. Aqui o caminho segue em paralelo com o ribeiro, desce como ele em direcção ao vale da Vilariça. A descer, mais doem os pés, parece que as unhas se espetam na biqueira dos sapatos. Estamos ladeados de montes, o escuro da noite fica mais forte, a lua quase que não chega aqui. Quando estamos já com a estrada à vista, paramos. A partir daqui deixa de haver caminho, vamos por um carreirão que mal se percebe, e como havíamos combinado o que ia à frente apertou mais o passo, foi-se afastando, e todos os outros fizeram o mesmo. Era eu que vinha a fechar o grupo, fui eu o último a chegar à estrada, na ponte do Salgueiro. O grupo reuniu-se novamente e não foi preciso esperar muito até começarmos a sentir o barulho do motor dum carro. Ao entrar na última curva as luzes bateram-nos de frente, foi abrandando até que parou onde nós estávamos. O motorista saiu, abriu a mala e meteu lá as bagagens dos meus companheiros. Entraram todos, o carro arrancou e rapidamente se perdeu na noite. Fiquei eu, como combinado, à espera do outro carro onde vinha o Passador. Olhei para o vulto da mala, para os pés que me doíam, levantei a vista para o vale da Vilariça, imenso, medonho a esta hora da noite. Senti um arrepio, o frio invadiu-me todo o corpo. Nunca havia sentido medo da noite, mas nesse momento senti-me desamparado, sozinho perante o imenso desconhecido que me esperava. O som do motor dum carro veio libertar-me desta situação embaraçosa que havia tomado conta de mim, esperei ansioso pela sua chegada. Lá vinha o Passador, saiu, metemos a mala dentro do carro, entrei também. Que alívio quando ouvi os restantes três passageiros corresponder ao meu “boa noite”, dado ainda com os dentes a bater de frio. Pouco tempo depois comecei a sentir o calor do carro e da transpiração de todos nós e com isso ganhei um novo alento. Os pés ainda me doíam mas essa dor foi adormecendo, até que deixei de a sentir. Que bem se vai aqui, de cu tremido…

Começa a viagem de carro, uma curva a seguir à outra, pouco depois já estávamos a passar a Trindade. Depois ainda fui reconhecendo partes da estrada cheia de buracos, as curvas de Caravelas, as casas de Bornes, mas depois só já via a noite escura a ser rasgada pelas luzes do carro. Perdi a noção da distância que íamos percorrendo até que vi as luzes de Macedo. Nas aldeias a escuridão é total, a luz eléctrica ainda não chegou lá, mas nas vilas já se vai vendo um ou outro candeeiro na rua. Aqui volto a saber onde vou, mas pouco tempo depois entramos novamente no escuro e então volto a perder-me e começo verdadeiramente a perceber que tinha deixado o meu mundo para trás. Agora era o desconhecido, é o Passador que manda, é ele que sabe o caminho que nos vai levar ao futuro, ao sonho, a França. Já deve ser tarde mas ninguém dorme. Vamos todos com o olhar fixo na estrada, como se fôssemos nós a conduzir. É por isso que não dormimos.

Assim passamos umas boas três horas de viagem.


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