Benlhevai

Texto de Apresentação

Capítulo VII
O grupo

As noites vão crescendo e os dias minguando. A chuva chegou finalmente em fins de Setembro, as nabiças crescem de dia para dia, a azeitona é vê-la inchar, ficar cheiinha e a folha das oliveiras vai mudando de cor, um verde mais carregado, mais saudável. Os ouriços também crescem nos castanheiros, qualquer dia começam a abrir e a mostrar as castanhas, três em cada um se o ouriço é grande, duas com uma folecra no meio se é mais pequeno. Nos troncos de alguns vão aparecer as línguas de vaca, aqueles cogumelos que têm este nome pelo seu aspecto, parecem mesmo línguas desse animal, dum castanho avermelhado, carnudas. Por baixo dos sobreiros vão aparecer os roquelhos, que se vão chamar frades quando a cabeça se abrir em aba, nos pinheiros as sanchas, as repolgas nos olmos e nos choupos, e pelos campos fora os níscaros de esteva, as orelhas de gato, enfim toda uma parafernália de níscaros que quase toda a gente come. Digo quase toda a gente e digo bem, porque há quem entenda que é sempre arriscado comê-los e que a melhor maneira de não ter problemas com os níscaros é não os comer.

- O Seguro morreu de velho!... – Diz a tia Maria, que não vai muito feita em comer o que não lhe dá confiança.

- E a Dona Prudência foi-lhe ao enterro… - Diz o tio Alfredo, que até gosta duns frades assadinhos na grelha, com umas areiazinhas de sal por cima, sumarentos, carnudos, um regalo para a vista, até dá gosto ver toda a família comer aquele manjar. Mesmo assim espera pelo dia seguinte e então, se ninguém se sentiu mal durante a noite, é sinal que estão bons e já os pode comer à vontade.

Sorte têm os animais, a quem o instinto diz com toda a precisão quais são os bons, e esses comem-nos, e quais são os venenosos, e esses nem para eles olham. Menos sorte tem aquela gente de quem todos os anos se diz que morreu, por vezes são famílias inteiras.

Já estamos em Outubro, os pássaros das ratoeiras já abalaram para sul, para climas mais quentes, que aqui está a chegar Outubro, o primeiro dos nove meses de inverno, quando terminar este Setembro, o último dos três meses de inferno. As terras já estão lavradas, está a começar a sementeira. Em minha casa vai reduzir-se drasticamente a lavoura. O meu pai já está a tratar de entregar as terras que tínhamos arrendado, as nossas chegam muito bem. Vou ter saudades da lavoura, dos bois, do cheiro a terra fresca, das cantigas que eu e os outros lavradores cantávamos, versos de amores, uns correspondidos outros impossíveis, aventuras e desventuras de gente e de animais, melodias calmas, ao ritmo do movimento dos bois. Vou ter saudades do silêncio das manhãs, do apelo ao esforço dos bois: - Eeeiii ‘marelo, eeeiii beizinhos…, e do calor da voz do meu pai a cantar a sua cantiga preferida:


O canto de apaixonado
Do rouxinol, coitadinho,
Canta o trabalho passado,
Para voltar ao seu ninho:

Saltava de erva em erva,
Nela colhendo os insectos;
Tinha do pai os afectos
E os carinhos da mãe.

Perdeu-se um dia, porém,
E saiu da Corvaceira;
Passou por uma carreira,
Até num ramo pousar.

Ali no chão um bichinho
Viu preso numa costela,
E logo foi cair nela,
O pobre do passarinho.

Veio então o caçador,
E ao vê-lo quase sem vida,
De perna e asa estendida,
De olhos fechados, quase morto,

Da costela o libertou,
E o pobre passarinho
Bateu asas e voou
Para voltar ao seu ninho.

Eu, pelo contrário, vou partir, vou deixar o meu ninho, rumo ao desconhecido. Como vai doer a distância… Que falta me vai fazer o canto das cotovias, que me andam a roubar os grãos de pão antes que a charrua os cubra com terra. São bonitas, as cotovias, ou parpalhaças, como lhes chamamos. Umas mais pequenas, as patorras, outras maiores, as que têm poupa, são companhia certa nestes dias de sementeira, elas e as formigas que vêm atrás da fartura de grãos e que se atropelam para os juntar. Que saudades vou ter das correrias do Farrusco, perseguindo tudo o que mexa, sempre a ladrar, do seu olhar meigo quando, já cansado, se deita a guardar-me o casaco e a merenda… E aquela hora mágica em que descansamos todos, os bois a uma sombra a comer um fardo de feno, eu sentado noutra sombra a comer a merenda que a minha mãe me preparou, o Farrusco à minha frente à espera da sua parte…




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