Benlhevai

Texto de Apresentação

Capítulo 8

Aldeanos e ciganos – o exemplo de Benlhevai


Alberto Borges de Sousa foi um cidadão de Benlhevai que marcou a sua época, por isso fica aqui nesta história num lugar especial, ganhou assim o estatuto de imortalidade. Fica ao lado da sua irmã Laura, a personagem maior desta história e de todas as outras que porventura eu venha a contar, ela e o seu companheiro duma vida, José Fernandes, Zé Valverde, porque Valverdes eram os seus antepassados, longa de setenta anos, curta para os filhos, que bem gostaríamos de nunca deles nos separarmos.

São desta geração o Porfírio e o Eduardo, seus irmãos, a Amélia, a Matilde, a Isabel, a Marília, a Georgina, o José Correia, conhecido por Zé Hipólito, porque Hipólito era o seu pai, o José Macedo, a Maria Augusta, o Henrique, a Filomena, o Joaquim Leite, a Fernanda, o Américo Ribeirinha, o Nuno, o Cipriano que viria a ser barbeiro, a Esmeralda, o Francisco Leite, o Salustiano, a Olímpia, O Zé Medeiros, a Celestina, muitos outros que não são mencionados. Todos estes já partiram, alguns recentemente. Outros continuam vivos, o Artur Teixeira, que ficou com o título de chaufer porque foi dos primeiros ou talvez o primeiro a ter carta de condução em Benlhevai, o Álvaro Pinto, que tem participado activamente na elaboração desta história, com as suas memórias e o seu jeito de as contar.

Vamos abrir um parêntesis e registar esta colaboração. O Álvaro Pinto tem sido a principal fonte de informação para descrever acontecimentos e respectivas datas. Muito do que aqui é dito foi ouvido da boca dele, o seu reportório é imenso, quer se trate de factos, versos, ditos, histórias, adivinhas e anedotas. Tem também um prazer permanente em partilhar connosco o que sabe, que é igual, nem mais nem menos, ao prazer que temos em o ouvir. Se esta história tivesse sido escrita há uma, duas ou três décadas, haveria muito mais gente a participar nela, gente que tinha igualmente uma grande qualidade em contar o que sabia. Que pena, dirão alguns e eu também. No entanto, se esta história só fosse escrita daqui a uma, duas ou três décadas, muito menos dados e histórias seriam escritas. Muitos dos que colaboraram e continuam a colaborar nesta história não estarão cá nessa altura.

Sinto uma pena enorme em ter perdido o manancial de informação que ouvi da minha Mãe, do meu Pai, do meu tio Jaime. Quem me dera ter escrito tudo o que ouvi deles e de tantos outros, o meu tio Porfírio, o Zé Macedo, o Alcino Mota, o Manuel Ribeirinha, o João Felgueiras, o Diamantino, e tantos outros que contaram histórias que eu ouvi e que enriqueceriam e de que maneira esta história. E o Cha’Delino?

Vou deixar por estas páginas alguma coisa que me ficou, muitas coisas que já vivi, ao longo destes mais de cinquenta anos que já passaram desde que levei a primeira nalgada. Vamos então apressar o passo, o tempo urge, temos que contar tudo o que sabemos!

Desta geração que nasceu por volta de 1920, mais uns anos ou menos uns anos, fazia parte o Adelino Teixeira, que nós chamávamos Cha’Delino, quer dizer tio Adelino, amigo de todos e aqui são incluídos todos os cidadãos, aldeanos, ciganos, albardeiros, caldeireiros, pobres de pedir ou pobres da volta, que assim chamávamos aos mendigos, poltriqueiros, que eram os que vinham cá fazer poltricas, isto é, eram circos ambulantes, que armavam a tenda em qualquer sítio, se possível no armazém do Antoninho Teixeira, no Portelo, que tinha espaço suficiente para o espectáculo e para o público. O mais afamado por estes lados foi sem dúvida o Brotas, que fez parte da história de Benlhevai e das redondezas. A todos o Cha’Delino dava espaço para dormir, se necessário comida para partilhar. Os ciganos tinham um especial carinho por ele, recebiam-no no seu seio como se cigano fosse, e ele não se fazia rogado, ia muitas vezes com eles a feiras e por aí fora. Falava a sua linguagem, e para quem não saiba convém dizer que os ciganos têm um dialecto próprio. Não sei se hoje em dia ainda o têm, mas há uns trinta ou quarenta anos falavam entre eles sem que ninguém dos aldeanos os entendesse, com excepção do Cha’Delino.

É por estas e por outras que eles se sentiam bem em Benlhevai, e não era só no quinteiro do Cha’Delino que eles ficavam, havia outros abrigos para esta gente em Benlhevai, outros quinteiros, corriças e casas. O Porfírio chegou a dar guarida a 25 ao mesmo tempo, na casa do Terreirinho, lá dormiam uns em cima dos outros; estava também sempre à sua disposição a corriça e o lameiro dos ciganos, no Prado, o próprio nome indica que ali nem precisavam de pedir autorização para ficar, mas era o quinteiro do Cha’Delino o seu porto de abrigo. Em Benlhevai sempre foi bem recebido quem vinha por bem, felizmente ainda assim é.

Vamos aproveitar para falar então de ciganos, é uma excelente altura de abordar a discussão, que é secular, acerca do relacionamento entre eles e os outros, os aldeanos. Hoje em dia é um problema de âmbito mundial, veja-se o que aconteceu em França no passado ano de 2010 com a expulsão de ciganos de origem romena. A pretexto de não se portarem como os outros, e se calhar alguns até se portavam mal, o governo francês expulsou todos os ciganos de origem romena que identificou. Não se põe em questão a legitimidade de expulsar quem merece, mas nunca se devem tomar decisões destas dirigidas a grupos, em função da sua etnia, da sua raça, da sua cor, do seu sexo ou da sua religião. Todas estas decisões provocam sentimentos xenófobos, racistas, fundamentalistas, que vão embater violentamente no que a humanidade tem de melhor.

Em Benlhevai essa questão nunca se pôs. Quando chegavam a Benlhevai, as ciganas iam dar a volta ao povo, a pedir umas batatinhas, uns figos secos, uma pinguinha de azeite, também roubavam qualquer coisinha se tivessem oportunidade para isso. Os ciganos iam direitinhos à taberna beber um copo, cumprimentavam os amigos, que em Benlhevai éramos todos, e nós retribuíamos os cumprimentos porque os considerávamos também nossos amigos. Falava-se de cria, se alguém lhes comprava um burro, “aquele ali que é o rei dos burros, lavra sozinho ou aparelhado, então mansinho como um passarinho, não há outro como ele”. Também compravam um burro ou um macho se alguém os vendesse, mas qualquer um desses iria ter todos os defeitos e mais algum, que na arte de comprar e vender cria, ninguém bate um cigano. Se o negócio era feito todos bebíamos o alboroque, que é a comemoração do negócio, e então pagava uma roada de vinho quem nesse negócio recebesse dinheiro.

Se quisermos dar exemplos da arte de negociar por parte dos ciganos, o melhor é ouvir o Artur Chaufer, que ainda está aí vivo e são, que o esteja por muitos anos, “e tu que os contes”, diria ele se estivesse aqui a ouvir, e que pode testemunhar esta passagem:

Uma ocasião o Eduardo da Matilde precisava dum burro, e ele, Artur Chaufer, tinha um que queria vender. “Dou-te quatro notas”, que quer dizer quatro notas de cem, ou seja, quatrocentos escudos, um bom dinheiro. Quem compra tem que ser o primeiro a mandar, e manda por baixo, é claro. “Tens que me dar oito notas”, diz o que vende. “É muito”, diz o que compra. Um sobe e o outro desce, mas desta vez não chegaram a fazer o negócio. Ele, Artur, ainda baixou até às seis notas, o Eduardo subiu às cinco, e dali não passou um nem outro e ficou tudo em águas de bacalhau, quer dizer, o negócio não se concretizou.

Mas como estava mesmo precisado dum burro, na feira dos 28 foi o Eduardo a Vila Flor e comprou lá um aos ciganos, um burro lindo, pêlo luzidio, com os peitos onde se via força por todos os lados, e então mansinho, podia-se dar de comer à mão. Chega o Eduardo triunfante a Benlhevai, e para fazer ver, passa por casa do Artur. “Estás a ver? Não me quiseste vender o burro? A mim até me calhou bem, olha o que comprei, e só me custou dez notas, e vale-as bem!”

“Olha que fizeste um rico negócio”, diz o Artur a rir. “Eu também vendi ontem o meu aos ciganos, e olha que é esse que trazes à rédea!”

“Estás maluco, homem, então eu não conheço o teu burro?” Diz o Eduardo já com dúvidas.

“Larga-lhe a rédea e vais ver para onde ele vai!”

O Eduardo assim fez, largou-lhe a rédea, e aí vai o burro direitinho para a loje do Artur Chaufer. Era mesmo o dele!

Tinham jeito para o negócio, os ciganos. Também, era a vida deles, era assim que ganhavam a vida. Trabalho duro, sachos, pás, ferros de bacelar, nem queriam ouvir falar disso, até lhes dava a azia, e é sabido que azias e constipações não entram nos ciganos, ficam bem vacinados em garotos, a dormir ao relento, a comer o que há, se há, a desenterrar um reco se lhes consta que algum morreu de doença e foi enterrado, pitas malinadas, cordeiros com bexigas.

Vinham por cá muitos. Havia os Belchiores, o Belchior pai, o Belchior filho, os outros filhos, Fernando, Zé e António. Havia ainda o Adão, que não era filho mas era também parente dos Belchiores. Depois temos a Dolores e o Alfredo, este já descendente dos chamados Sr.Professor e S.ra Professora. No entanto, a grande família de ciganos, a mais numerosa e mais afamada era a dos Chochos. O Francisco, que por este nome ninguém o conhece, porque para todos era apenas o Chocho Velho, e a mulher do Chocho Velho era a Maria, ou seja, a Chocha Velha. Toda a gente em Benlhevai os conhecia e sabia que os filhos são o Alberto e o Zé Corno, este casado com a filha do Aníbal, aquele aleijado duma mão que quando estava meio tocado se estava sempre a lamentar “Mal’o’haja a minha sorte, mal’o’haja”, e fingia que limpava uma lágrima, mas sempre com a mão côta, para se ver bem. Aquele que uma ocasião deixou o burro preso no Portelo, com os copos esqueceu-se de o ir buscar à noite, e de manhã quando lá chegou estava lá o sítio. A rédea continuava presa ao pessegueiro, mas do burro só havia uns vestígios, os lobos tinham-no comido. Agora dá para rir, mas naquela altura ninguém lhe achou graça, ainda menos o Aníbal, e muito menos o burro.

Continuemos com a família dos Chochos. As raparigas são a Adelina, casada com o Amadeu Albardeiro, assim chamado porque fazia e concertava albardas, era um mestre com a sobela na mão, a Cândida, casada com o Mijão, ambos os dois, pais da Parrequinha, que é a mulher do Gualdino, e a outra filha é a Constança, casada com o Ruta. Quem é que não ficou a perceber?


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