Benlhevai

Texto de Apresentação

Capítulo XVI

Na Estrada


- O senhor donde vem?

É o companheiro de viagem que está sentado ao meu lado que me faz voltar à realidade. Protegidos pelo barulho da camioneta, já podemos conversar, aqui ninguém nos ouve. Já sabia que dos vinte que aqui vamos três são de Santa Comba, ali do coração da Vilariça, a uns três quilómetros de Benlhevai, agora fico a saber que os outros doze são dos lados de Bragança. Este que me falou é um deles e vai-me contando parte da sua vida, aquela que interessa para o caso. Já é a segunda viagem que faz. A primeira não correu nada bem, passaram a fronteira metidos numas cubas de transporte de vinho.

- Aquilo era um cheiro que nem queira saber! Um nem chegou à fronteira, vomitava que até metia dó, acabou por desmaiar e ficou em terra.

Uma noite, lá para o meio de Espanha, tinham-lhes dito que iam entrar em carros que estavam à sua espera. Dividiram-se em grupos de quatro, e quis a pouca sorte que o grupo onde ele ia fosse o da frente. Lá viram então um carro com as luzes acesas, entraram e deram de caras com um motorista fardado com uma pistola na mão. Era a Guardia Civil que os tinha apanhado. Um que ia com ele ainda fugiu, mas de pouco lhe valeu, foi apanhado por outros guardas que apareceram da sombra. Calhou bem aos outros três grupos, que ao ver este aparato fugiram todos, um para cada lado, e lá escaparam. Acabaram por chegar a França, soube-o por um amigo que é da terra dele e que escreveu para a mulher.

- Então e o senhor e os que iam consigo, que é que lhes aconteceu?

- Nada de muito mal, tirando umas cacetadas ao ir para o posto da Guardia Civil. Dormimos na prisão dois dias, mas davam-nos de comer. Era uma mixórdia que nem lhe sei explicar o que tinha lá dentro. Era um arroz desenxabido, esmagado, até parecia cola. Lá o comíamos para matar a fome, que nós não nos matávamos muito a comê-lo, não eram muito largos, deviam ter medo que engordássemos. Depois trouxeram-nos até à fronteira, entregaram-nos à GNR em Portugal, mais umas cacetadas, a comida ainda passou a ser menos, mas aí já sabíamos o que era, batatas ao almoço e batatas à ceia, peguilho, nem vê-lo. Dormimos mais três noites na cadeia e largaram-nos em Bragança com o aviso de que ficavam com o nosso nome registado e de que nos íamos ver muito mal se fôssemos apanhados outra vez. Que nem tentássemos!

- Mas cá vai outra vez, não é?

- Pois claro, deu-me para aqui, é em França que quero governar a minha vida. Se me apanharem outra vez, Deus queira que não, logo veremos o que vai acontecer… Sabe, tenho mulher e três filhos e dói-me o coração de não lhes poder dar o suficiente para não passarem fome. Farto-me de trabalhar, umas vezes por uma côdea, outras para pagar as rendas das terras, pouco sobra. Isto não é vida. Em França, pelo que se ouve dizer, trabalho não falta e pagam bem.

E o senhor, que é que o trouxe para esta viagem?

- Também ouvi dizer bem de França. Ainda sou solteiro mas já sei com quem casar. Na minha terra acontece o mesmo que na sua, trabalhamos de sol a sol o ano inteiro, chegamos ao fim e só vemos fartura na casa dos ricos. Somos nós que fazemos a sementeira, as mondas, a segada, a acarreja, a malhada e no fim é a tulha deles que fica cheia. Para ajudar à festa agora mandam-nos para Angola, põem-nos uma espingarda nas unhas e toca a matar quem nos aparecer à frente.

- Pois isso não é vida, não… Está a ver aquele ali? – aponta para outro companheiro de viagem – é da minha terra e teve a pouca sorte de ficar doente aqui há uns dois anos. Teve que ir para o Porto para ser operado ao estômago, ficou-lhe a brincadeira em doze contos. Não os tinha, bem entendido, teve que os ir pedir emprestados. Agora vai à procura de os arranjar para se desempenhar, que aqui nunca mais arranja tanto dinheiro, nem que se mate a trabalhar.

Olho para o homem para quem este amigo aponta. Vai calado, parece-me triste, foi a doença que o mandou pelo mundo fora, à procura duma forma de se libertar de dívidas. Vou passando os olhos pelos outros e pergunto-me o que os leva a entrar assim no desconhecido. Cada um tem os seus motivos, mas há um que é comum a todos, o dinheiro, francos para trocar por escudos, para dar de comer aos filhos, para construir uma casa, para comprar uma terra que lhe permita trabalhar naquilo que é seu. É triste passar uma vida inteira a trabalhar nas terras dos outros, à jeira ou a pagar renda, tanto dá. Que bom será, pensarão a maior parte destes homens, ter uma terra sua, lavrá-la, plantá-la, ver as sementes germinar, romper a terra, crescer de encontro ao céu. Que bom será poder escolher o dia da colheita, levá-la para casa sem ter que dar parte dela aos outros, aos que nascem já proprietários. Esses não têm que emigrar, não têm que sentir a dor da partida, não têm que passar pela vergonha de chorar. Será vergonha chorar quando é a alma que chora?

O meu amigo do lado continua a falar, da mulher que deixou em casa a chorar, dos filhos que só choraram quando deram pela ausência do pai. Não é fácil falar da dor que sente no peito quando se lembra deles, igualzinha à dos meus amigos de Benlhevai, tirando o Carlos que, tal como eu, ainda não tem mulher nem filhos. O Carlos ainda tem vantagem sobre mim, nem namorada tem, pode ir até à procura duma, francesa, previsivelmente. Eu levo a Carolina na cabeça, o seu amor no coração, o seu sorriso que não me larga, que me acalma, que me enche de forças para enfrentar o que aí vem, seja o que for.

Todos deixámos tudo para trás, a casa onde nascemos, a rua onde brincámos, o pai, a mãe, os irmãos, a mulher, os filhos. Todos deixámos um país que é nosso mas que nos abandonou, nos humilhou, nos atirou para fora das suas fronteiras. É também este país que queremos mudar, reencontrá-lo diferente um dia, moldado também pelo nosso esforço, pelo produto do nosso trabalho, inundado de liberdade, essa de que vamos à procura.



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