Benlhevai

Texto de Apresentação

Capítulo XXII

EIBAR



Falta um! O Passador anda para trás e para a frente, nervoso, todo molhado da cabeça aos pés. Ficamos todos em pânico, cada um à procura dos que conhece. Os de Benlhevai estamos todos, os de Santa Comba também estão, dos de Bragança não vem qualquer sinal de que falte alguém. 

Falta uno, conho! Uno, dos, três…, mira, estás aí!...

Era um de Bragança que o Passador não contava, Que alívio, estamos todos!

Continuamos o nosso caminho, agora mais largo e menos acidentado, As árvores começaram a aparecer, o verde dos campos também. Pouco a pouco fomo-nos afastando do perigo, sentindo a água por todo o corpo sem que isso nos incomodasse. Já ninguém se importava com a chuva que caía nem com a água que pisávamos. Todos tínhamos passado aquela ponte, isso era o que importava.

Metemo-nos então pelo meio dum lameiro, em direcção a uma casa que nos esperava. Uma mulher abriu-nos a porta, subiu connosco umas escadas para o andar de cima e explicou-nos num castelhano pausado, para compreendermos, que iríamos ficar em grupos de quatro nos cinco quartos que havia. O Passador avisou-nos que não nos devíamos mostrar. Ele ia ter com o amigo que trabalhava na fronteira para saber o dia e hora em que a íamos passar.

Secámo-nos como pudemos, com uns farrapos que apanhámos ali pela casa, depois aconchegados ao lume, na cozinha, onde comemos umas sopas de ovos. Não sei o que sabia melhor, se as sopas se aquele quentinho da lareira. Não havia muita vontade de conversar, por isso, depois de comer, fomos todos para os quartos descansar, pensar nas dificuldades da viagem, na incerteza do que nos esperava, no aconchego do nosso lar, na casa que deixámos lá longe, tão longe deste estranho lugar, quase irreal.

Adormeci logo a seguir, voei em sonhos até aos lameiros da Confraria, os pés descalços a percorrer as agueiras, a pisar a erva, o corpo todo mergulhando na água calma do ribeiro da Tacinha, indo com ela por entre aqueles montes, entre giestas floridas, até ao termo da Freixeda. A água era morna, tão diferente desta que hoje me gelou os ossos.

Acordei confuso com o silêncio da manhã. Ninguém chamava pelos que ainda dormiam, ninguém perguntava qual o caminho que íamos percorrer. Alguns dormiam, outros espreitavam pelas janelas, queriam saber onde estávamos, conhecer o que nos rodeava. Erva, lameiros, um caminho estreito que não sabíamos onde ia ter. Esperávamos que nele aparecesse o Passador com notícias do amigo que trabalha na fronteira, que nos iria facilitar a passagem para o outro lado.

Passou-se a manhã, a tarde, veio a noite e nada, nem Passador, nem notícias nem nada que se comesse. Cada um lá foi à mala rebuscar no saco da merenda, a contar o que ainda ficava, que não sabíamos o que nos esperava. Assim fomos à cama, apreensivos.  

Acordei e não consegui lembrar-me de ter sonhado fosse com o que fosse. Senti-me mal por isso, pareceu-me tudo sem sentido, vazio de emoções. Virei-me para o lado, fechei os olhos mas sabia que já não ia dormir mais. Os meus companheiros, ou dormiam ou estavam como eu, acordados mas sem vontade de fazer fosse o que fosse.   

Começou então a sentir-se um cheiro a comida e todos nos levantámos de repente. Era a mulher que nos tinha recebido que estava a por na mesa mais umas sopas de ovo. Ninguém se importou de repetir, a fome não nos dava tempo para esses reparos.

Não sabia de nada, era esta a resposta às perguntas que todos lhe fazíamos. Encolhia os ombros e dava-nos a entender que não estava a par do que se passava. Pediram-lhe para nos dar de comer, e fazia o que podia para atender esse pedido. Ovos e pão, era o que tinha com alguma fartura, era isso que nos dava.

Não se passou mais nada durante o dia. O Passador não dava sinal de vida, a mulher das sopas de ovo visitava-nos menos vezes do que queríamos. Lá para o fim da tarde, cada um lá foi rebuscando no saco da merenda, tirando o menos que podia do pouco que ficava.

Esta espera deu-nos tempo para olharmos mais para cada um dos outros. Os dias de viagem foram intensos em emoções, cansativos, cada um tratou de si, não havia tempo para mais. Esta espera dá-nos agora tempo para perceber o que vai na alma de cada um. Naturalmente vamo-nos chegando aos mais próximos, os grupos vão-se formando conforme a origem de cada um, os de Benlhevai vamos passando os dias a conversar, a tentar animar algum mais descrente, a fazer planos para o futuro, que é uma maneira de tentar esquecer as dificuldades do presente.

Eu e o Carlos, se calhar por sermos solteiros, somos os animadores do grupo.

“- Estas dificuldades hão-de passar, o Passador não tarda a vir aí dar ordens para avançar, que o seu amigo já tem tudo tratado na fronteira”.

O Manuel “da Rosa”, o Chico “d’Eirinha” e o Luís “Pedreiro” não estão tão confiantes, para eles o Passador tem a faca e o queijo na mão, se lhe apeteceu raspar-se com o dinheiro, ninguém o impediu, nós que nos governássemos. Um de Santa Comba ouve a conversa, afiança que o Passador nunca faria semelhante coisa.

Mais um dia que passou e notícias do Passador, nada. Começam a ouvir-se vozes de desalento, intenções de desistir. Mas desistir, como? Agarrar a trouxa e voltar para trás? Por onde, por que caminhos? Esta viagem só tem um sentido, não adianta sequer pensar em desistir. P’rá frente é que é o caminho!

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