Lendas e Historias

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O RESULTO DA CHOLDRA




Na feira dos 15 era uma romaria. Tinham-se ganho umas c’roas nas segadas, e era tempo de comprar umas calças, um sacho para substituir o que estava em casa, que estava gastinho de todo. Aqueles feijões chícharos na Maria Paz, tanta erva que criavam entre aquela imensidão de seixos, davam nisto, era quase um sacho por ano.

Também se ia sem ter nada para vender ou para comprar, apenas pelo prazer de ir à feira de Vila Flor, ver amigos doutas terras, comer o rancho na taberna da senhora Antónia, com aquele pão branquinho que sabia tão bem, ou apenas pela animação da viagem.

Era uma festa pegada desde que se saía ali pelo Portelo, depois pelo Prado acima, até chegar ao Noval. Daqui até à Pena do Corvo o entusiasmo esmorecia um pouco, porque começavam a aparecer os primeiros sinais de cansaço, mas quando se começava a descer até à Casa das Almas, ali mesmo ao lado de Vale Frechoso, e se começavam a ver as Capelas, era sinal que Vila Flor estava perto, e o cansaço desaparecia como que por encanto. Mais um dito, uma graçola, e quando nos íamos a percatar, estávamos ali nas Canelhas, e era só escolher se íamos pelo Barracão, onde se podia beber um copo na taberna do Truluru, ou pelas Capelas, mais rápido mas com as goelas mais secas. Uma boa dúzia de quilómetros por caminhos e carreirões, tinha-se feito sem dar por ela. Pior vai ser no regresso.

Meu dito, meu feito. No regresso já se vinha da festa, o cansaço sentia-se a dobrar, e para tornar a viagem mais penosa, ainda se traziam as compras nas mãos e às costas.

O Augusto, para facilitar a tarefa, trazia o sacho nos ombros, atravessado por detrás da cabeça, cada braço por cima do cabo, dobrado nos cotovelos. Às costas, trazia uma saca com outros arabecos que tinha comprado, presa ao cabo do sacho, e como as mãos vinham penduradas, o outro saquito que trazia meteu-o em cima da cabeça, debaixo do chapéu. Era uma encomenda que a tia Alice lhe tinha feito, “que lhe trouxesse meio quilo de soda, para fazer sabão”.

Lá vêm todos, um diz uma coisa, outro diz outra. O sol ainda vai alto, até queima, os campos estão escalabriados. Mais uma subida, a seguir uma descida, este sol até queima, e começa a sentir uma comichão na cabeça, a estender-se já para as orelhas.

- Que é que te morde, rapaz?

A comichão aumenta, lembra-se então da encomenda que trazia na cabeça, por baixo do chapéu, mete lá as mãos, sente o calor da soda derretida, sacode-a, mas esta está lá agarrada, bem agarrada. Levam-no a uma fontela que está ali por perto, tiram a soda como podem, rapam o cabelo que ficou queimado. Foi só um susto, e fora de perigo, todos se riram das piruetas do Augusto, ao sentir a soda a derreter, e a lamentar-se “do resulto da choldra”.

A partir dali, quem quisesse brincar com ele, era perguntar-lhe:

- Então Augusto, qual foi o “resulto da choldra”?