Depois duns anos de interregno, vai-se proceder novamente à arrematação das leiras da igreja. Vai ser depois da missa do próximo dia 25, que vai ser celebrada às 14 horas.
Antigamente era no dia 1 de janeiro, e era um acontecimento solene. O adro enchia-se de gente para ver ou para arrematar as leiras. Na altura, as hortas das leiras eram um mimo; todas tinham água, a terra era boa, dava para trazer para casa tudo o que uma boa horta dá: batatas, feijões, cebolas, era uma fartura. Por isso tinham muitos pretendentes.
No livro “Histórias de Benlhevai” faz-se alusão a estas arrematações. Deixa-se aqui um extrato das páginas onde é relatado esse acontecimento:
“… Depois da missa havia a arrematação das leiras. Um que desse jeito para o negócio pegava num raminho de oliveira, subia as escadas que dão para a sacristia, e começava o leilão. O que desse mais ficava com a leira que estivesse a ser arrematada, e seguia-se para a próxima:
“Vamos agora arrematar a leira do Samões. Está em trinta escudos, quem dá mais?”
“Trinta e cinco!”, Diz o Álvaro Samões, que é a ele que pertence. Já a trazia, e tem-na bem tratada.
“Trinta e sete e quinhentos! Isto é p’rá igreja, rapazes, o preço tem que subir!”
O Álvaro Samões olha para o concorrente com olhos de quem não gostou nada da brincadeira. Não é a vida da igreja que lhe interessa, é a sua, e vai dar mais cinco escudos do que estava a pensar, que bem falta vão fazer lá para casa. Com voz de zangado diz:
“Quarenta, e se alguém der mais por ela, é dele.”
O outro viu que não era nada aconselhável mandar mais, e calou-se. O arrematador ia entusiasmando o pessoal a subir a parada, que era esta a sua missão, mas ninguém se manifestou. Passou então à parte final:
“Quarenta escudos, dá-se-lhe uma, quarenta escudos, dão-se-lhe duas, quarenta escudos, dão-se-lhe duas e meia, quarenta escudos, dão-se-lhe três!”
O Álvaro Samões avança triunfante, vai, como é costume, tocar no ramo, o que anda com o garrafão dá-lhe um copo, e o arrematador passa à seguinte:
“Vamos agora à do rabudo.”
E lá continuavam as arrematações com peripécias mais ou menos parecidas com esta, e com o que estava com o vinho a dar a volta, porque essa era uma atividade que rendia. Bebendo uns copos aumentava o entusiasmo e os preços melhoravam. Era um bom investimento, o vinho. No fim, o arrematador, o sacristão e o padre fazem contas ao negócio. Esta deu pouco, esta deu assim assim, esta foi bem puxadinha, no fim não está nada mal.
“Deu a mocha pela cornuda…”
Disse o sacristão, querendo dizer que o valor de algumas ficou aquém das expetativas, mas o de outras foi bem puxadinho, pelo que o resultado final foi bom… “
A parte histórica fica para a posteridade, é a bíblia de Benlhevai não só nos factos como nas pessoas, quanto ás arrematações é de louvar a vontade de continuar.
vitor